Nos anos 90, o PS1 ficou marcado pela ascensão dos JRPGs japoneses, que conquistaram atenção global e mudaram o panorama dos videogames. Títulos como Final Fantasy abriram caminho, enquanto outras franquias clássicas davam peso ao gênero. Em meio a esse cenário, a Sony quis apostar alto e financiar produções de grande escala para competir nesse mercado crescente. The Legend of Dragoon surgiu como um projeto ambicioso, com cenas em CG e uma proposta de aventura longa que visava disputar o mesmo público dos grandes nomes da época. Esse posicionamento acabou criando expectativas elevadas sobre o jogo.

Quando The Legend of Dragoon chegou ao Ocidente em 2000, as críticas foram mornas e muitas comparações desfavoráveis com Final Fantasy surgiram imediatamente. Essas avaliações ignoraram que se tratava de uma propriedade nova criada por um estúdio ainda em desenvolvimento. Ainda assim, o grande apoio da Sony fez com que o título fosse cobrado por atender a padrões mais altos. Com o tempo, essas expectativas moldaram a percepção crítica e comercial do jogo. Hoje é possível entender as razões dessas críticas sem deixar de reconhecer as ambições do projeto.

The Legend of Dragoon Review (PS5 / PS1) | Push Square
Imagem: Divulgação / Reprodução

Revisitar The Legend of Dragoon mais de duas décadas depois revela tanto acertos quanto limitações típicas do período. A tradução para o inglês tem trejeitos que comprometem trechos do enredo, e o sistema de combate tende a dividir opiniões por sua singularidade. Mesmo assim, o jogo conserva um carisma próprio que atrai fãs antigos do gênero em busca de nostalgia. Muitos encontrarão valor na direção de arte e na trilha sonora, que ajudam a sustentar a jornada pelo mundo apresentado. No conjunto, a experiência pode ser encantadora apesar dos defeitos.

O ponto forte de The Legend of Dragoon está na sensação de aventura e na construção do mundo, com um mapa repleto de localidades memoráveis. A narrativa segue elementos clássicos — dragões ancestrais, artefatos poderosos e um império maligno —, mas investe em personagens com motivações que tornam a história emocionalmente envolvente. Apesar de previsível em sua estrutura, o roteiro acerta em momentos mais duros e diretos, sem medo de tratar temas sombrios quando necessário. Esse compromisso com cenas mais densas dá substância ao que poderia ser apenas uma fantasia convencional. Para muitos jogadores, os personagens são o que mantém o interesse ao longo das longas horas de jogo.

The Legend of Dragoon Review (PS5 / PS1) | Push Square
Imagem: Divulgação / Reprodução

Do ponto de vista de jogabilidade, The Legend of Dragoon segue a cartilha dos RPGs japoneses de 2000, com algumas reviravoltas interessantes que o diferenciam. O sistema de combate baseia-se em duas ideias centrais: Additions e as transformações Dragoon, que modificam radicalmente o desempenho dos personagens. Additions funcionam como combos únicos para cada integrante do grupo, exigindo um ajuste de ritmo nos comandos para serem executados corretamente. Essa mecânica de tempo e reação adiciona uma camada ativa ao combate, aproximando-o de um minijogo rítmico dentro do combate por turnos. Entender e dominar essas sequências é fundamental para progredir sem depender apenas de menus e stats.

Combate

As Additions mais poderosas exigem sequências mais longas e intrincadas, e inimigos com contragolpes obrigam mudanças rápidas de botão ou a perda do ataque. Em comparação com sistemas puramente táticos e baseados em menus, essa abordagem soa estranha, mas também dá identidade ao jogo. Após o domínio das sequências, executar combos pode se tornar satisfatório e até ritualístico, acrescentando prazer nas batalhas bem-sucedidas. O problema aparece quando a repetição se instala: como só é possível equipar uma Addition por vez, a tendência é usar sempre as mesmas sequências. Essa limitação acaba reduzindo a profundidade estratégica ao longo do tempo.

The Legend of Dragoon Review (PS5 / PS1) | Push Square
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Felizmente, as transformações Dragoon, liberadas horas depois do início, renovam o combate com novas possibilidades táticas. Pontos de espírito, ganhos ao executar Additions com sucesso, são gastos para ativar essas formas temporárias e desbloquear Additions poderosas e magias exclusivas. Essa mecânica funciona como um divisor de águas em encontros mais desafiadores, compensando em parte a repetição anterior. Assim, o jogo equilibra a sensação de frustração das lutas iniciais com momentos de grande satisfação quando a estratégia se abre. Para muitos, esse contraste é o que transforma o sistema de combate em uma experiência memorável.

Problemas técnicos

The Legend of Dragoon Review (PS5 / PS1) | Push Square
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A versão para PS5 apresenta problemas técnicos que chegam a atrapalhar a imersão durante a jogatina. Vimos efeitos visuais piscando, cenários com clipping e modelos de personagens que às vezes se comportam de forma estranha. Falhas de áudio também aparecem, com falhas em falas e efeitos sonoros ausentes em momentos pontuais, e reiniciar o jogo resolve alguns desses bugs temporariamente. Além disso, a taxa de quadros oscila em batalhas, que por si só já são lentas na execução, tornando encontros prolongados ainda mais arrastados. Essas questões técnicas não inviabilizam o jogo, mas incomodam o jogador acostumado com padrões atuais.

The Legend of Dragoon é um exemplar clássico do período áureo dos JRPGs: ambicioso, carismático e visceralmente datado em alguns aspectos. O sistema de combate oferece uma identidade própria com suas Additions e transformações Dragoon, embora sofra com repetição e limitações de equipamento. Personagens e trilha sonora sustentam uma narrativa que, apesar de previsível, entrega momentos emocionantes e mais sombrios que surpreendem. As falhas técnicas na versão moderna prejudicam a experiência, mas não apagam a memória afetiva que muitos jogadores têm do título. No saldo final, trata‑se de uma aventura imperfeita, porém memorável, especialmente para quem aprecia a era do PS1.

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