Castlevania: Dracula X Completa 31 Anos: o Clássico Que Chegou Mutilado ao Ocidente (e Mesmo Assim Marcou Época)

Hoje, 21 de julho, marca os 31 anos de Castlevania: Dracula X, lançado originalmente no Japão em 1995 para o Super Nintendo sob o nome Akumajō Dracula XX. Quem cresceu caçando o Conde Drácula em fitas de 16 bits provavelmente lembra da capa sinistra, da dificuldade impiedosa e daquela sensação de estar jogando algo maior do que aparentava. E estava mesmo: por trás desse cartucho existe uma das histórias mais curiosas de adaptação da história dos videogames, cheia de cortes, compromissos técnicos e uma pitada de má sorte comercial. Poucos jogos de Super Nintendo carregam um histórico de bastidores tão cheio de reviravoltas quanto esse, e é justamente isso que torna a data de hoje uma boa desculpa para revisitar a origem completa dessa aventura gótica.
Bora relembrar por que esse jogo continua gerando discussão entre fãs da série mais de três décadas depois, e por que ele carrega um peso histórico que vai muito além da nota que recebeu na época.
De Rondo of Blood a Dracula X: a origem de uma adaptação impossível
Para entender Dracula X, primeiro é preciso falar de outro jogo: Castlevania: Rondo of Blood, lançado em 1993 exclusivamente no Japão para o PC Engine Super CD-ROM² da NEC. Rondo era um primor técnico para a época, com dublagem completa, trilha sonora em qualidade de CD e fases não lineares repletas de caminhos alternativos. O problema é que, fora do Japão, praticamente ninguém tinha acesso a um PC Engine. O console nunca decolou comercialmente no Ocidente, e a base instalada de jogadores capazes de sequer rodar o jogo original era pequena demais para qualquer editora ignorar.
A Konami viu ali uma oportunidade e decidiu adaptar aquela história para o público ocidental, mas esbarrou numa limitação e tanto: o cartucho de Super Nintendo não tinha nem perto do espaço de armazenamento de um CD. Estamos falando de megabits contra centenas de megabytes. Some a isso acordos de exclusividade que a NEC mantinha sobre o material original, e o resultado foi que Dracula X não podia ser simplesmente um port de Rondo of Blood. Precisava ser outra coisa: uma reconstrução, aproveitando sprites, inimigos e chefes do jogo original, mas com fases inteiramente redesenhadas do zero pela equipe da Konami.
Dirigido por Kouki Yamashita e produzido por Kuniaki Kinoshita, o projeto chegou ao Japão em 21 de julho de 1995, aos Estados Unidos em setembro daquele ano, e só bem depois à Europa, em fevereiro de 1996.
Por que o nome virou Vampire’s Kiss na Europa?
Um detalhe que confunde colecionadores até hoje: na América do Norte e no Japão o jogo manteve a identidade Dracula X (ou Akumajō Dracula XX), mas na Europa ele chegou como Castlevania: Vampire’s Kiss, sem nenhuma menção a “Dracula X” na capa. Os motivos exatos por trás dessa troca de nome nunca foram confirmados oficialmente pela Konami, e até hoje é tema de especulação entre fãs, com teorias que vão de possíveis conflitos de marca registrada a simples decisões de marketing regional. O que se sabe com certeza é que se trata do mesmo jogo, byte a byte, apenas rebatizado para o mercado europeu, o que gera não poucos mal-entendidos em fóruns e grupos de colecionadores até os dias de hoje.
A trama: Richter, Annet e o resgate que decide o final
A história gira em torno de Richter Belmont, o caçador de vampiros da vez, cuja namorada Annet é sequestrada pelo próprio Drácula como isca. Junto com ela vai Maria Renard, a irmã mais nova de Annet, uma garota com poderes místicos que em Rondo of Blood podia ser resgatada e jogada como personagem secreto e completo, com golpes próprios e final exclusivo.
Em Dracula X, esse carinho pelo detalhe some. Maria continua sendo resgatável ao longo da aventura, mas perde completamente a jogabilidade: vira só mais uma donzela em perigo, reduzida a um gatilho de roteiro. Richter Belmont é o único personagem controlável do início ao fim, uma simplificação que magoou bastante quem já tinha ouvido falar do carisma da versão japonesa.
O jogo também manteve algo interessante de Rondo: múltiplos finais dependendo de quem você consegue salvar. Resgatar apenas Annet leva a um desfecho, ignorar as duas leva a outro, e somente salvando Annet e Maria juntas os jogadores desbloqueiam o final verdadeiro da aventura. Essa mecânica de escolha, ainda que simplificada, deu ao jogo uma camada extra de replay valor num período em que poucos títulos de plataforma se preocupavam com múltiplos desfechos.

Fases, chefes e a dificuldade que quebrou controles
Dracula X entrega nove fases no total: sete estágios principais e dois estágios alternativos, acessíveis por caminhos secretos escondidos ao longo do jogo. É bem menos do que os quatro caminhos ramificados de Rondo of Blood, mas ainda assim garante variação suficiente para quem gosta de explorar cada canto do castelo em busca de atalhos.
Os cenários reaproveitam boa parte dos inimigos, chefes e temas visuais do jogo original no PC Engine, só que remontados em layouts inéditos. Ao longo da campanha, Richter enfrenta nomes como Cerberus, o cão de três cabeças guardião dos portões, o gigantesco Phantom Bat, o cavaleiro sem cabeça Dullahan, o brutal Minotauro e o sinistro Necromancer, antes de encarar Drácula em pessoa. Alguns desses embates ainda mudam dependendo das suas escolhas anteriores: se você não conseguir resgatar Annet a tempo, o confronto do sexto estágio se transforma numa luta completamente diferente daquela que espera quem salvou a garota.
E sobre a dificuldade: é praticamente unânime entre quem jogou que Dracula X está entre as entradas mais punitivas de toda a franquia Castlevania. Os desenvolvedores aumentaram sensivelmente o nível de desafio em relação a Rondo of Blood, com inimigos mais agressivos, plataformas mais cruéis e um design de fase que perdoa muito pouco. Não é incomum ver esse jogo citado em listas de “os Castlevania mais frustrantes” ao lado de nomes como Castlevania II: Simon’s Quest.

Chicote, sub-armas e o Item Crash: as ferramentas de Richter
Como em todo Castlevania clássico, o combate de Dracula X gira em torno do chicote da família Belmont, que pode ser aprimorado ao longo da fase até virar a lendária Vampire Killer, mais longa e mais forte. Junto dele, Richter carrega o arsenal tradicional de sub-armas da série: a machadinha que voa em arco, a adaga rápida e certeira, o crucifixo que atravessa a tela, a água benta que incendeia o chão e o relógio que paralisa inimigos por alguns segundos preciosos.
O grande diferencial mecânico, herdado diretamente de Rondo of Blood, é o Item Crash: ao combinar corações (o combustível das sub-armas) com um input especial, Richter descarrega um ataque especial devastador específico para cada sub-arma equipada. Foi a primeira vez que a série experimentou esse tipo de golpe especial condicionado a recursos, uma ideia que ecoaria em mecânicas parecidas de jogos de ação por anos depois. Dominar quando usar um Item Crash contra um chefe específico costuma ser a diferença entre sobreviver a uma fase e ver a tela de game over pela enésima vez.
Trilha sonora: remixando remixes
A trilha sonora de Dracula X ocupa um lugar curioso na discografia da série. Rondo of Blood já havia remixado temas clássicos de Super Castlevania IV (lançado em 1991, também no SNES) usando a qualidade de áudio Red Book do CD do PC Engine. Quando a Konami trouxe essas composições de volta para o chip de som do Super Nintendo em Dracula X, o resultado foi, essencialmente, um remix de um remix, comprimido para caber nas limitações sonoras do cartucho.
O veredito dos fãs é dividido. Uma parte considera as versões do SNES competentes, mas visivelmente inferiores à experiência em CD de Rondo. Outra parte defende que, mesmo comprimida, a trilha continua com arranjos memoráveis e mantém a atmosfera gótica que sempre foi marca registrada da série. De qualquer forma, faixas como o tema de abertura ainda aparecem com frequência em playlists e covers feitos por fãs até hoje, prova de que a composição original resistiu bem ao teste do tempo, independentemente da qualidade de compressão.
Recepção da crítica e o fantasma de Rondo of Blood
Na época do lançamento, Dracula X recebeu uma recepção morna por parte da imprensa especializada. Boa parte das críticas apontava falta de inovação e uma sensação de “trabalho encomendado” em relação ao que a Konami havia entregado em Rondo of Blood. Faltavam a dublagem, a não linearidade completa e o polimento técnico que só um CD conseguia oferecer naquele momento.
Mesmo assim, avaliado isoladamente, sem a sombra do original japonês, Dracula X segue sendo lembrado como um jogo de plataforma sólido, bonito para os padrões do SNES e com uma direção de arte competente. Para praticamente todo o público ocidental da época, esse cartucho foi literalmente a única forma de conhecer a história de Richter Belmont e Annet, já que Rondo of Blood não teve lançamento oficial fora do Japão durante anos. Isso deu a Dracula X um papel histórico importante, mesmo sendo tecnicamente a versão “menor” da mesma aventura. Comparado a outros títulos da época, que raramente ousavam adaptar uma obra de um console concorrente, o próprio ato de recriar Rondo of Blood do zero para o SNES já era, por si só, uma aposta arriscada para os padrões da indústria em 1995.
Um clássico que sumiu das coletâneas oficiais
Curiosamente, quando a Konami lançou a Castlevania Anniversary Collection em 2019, reunindo boa parte dos clássicos 8 e 16 bits da série em um só pacote digital, Dracula X ficou de fora. A ausência gerou reclamações recorrentes de fãs em fóruns e páginas de discussão da coletânea, que esperavam ver o jogo ao lado de nomes como Super Castlevania IV e Castlevania: Bloodlines. Sem uma reedição digital oficial fácil de encontrar, cartuchos originais de Dracula X seguem sendo disputados no mercado de colecionadores, com preços que variam bastante dependendo da região e da condição da caixa e do manual.
O legado: como Dracula X moldou o futuro da série
Por mais que divida opiniões, é impossível negar a importância de Dracula X na linha do tempo de Castlevania. Foi através dele que jogadores fora do Japão conheceram Richter Belmont, personagem que reaparece dois anos depois como peça central de Castlevania: Symphony of the Night (1997), um dos jogos mais aclamados da história do gênero metroidvania. Sem Dracula X, boa parte do público ocidental chegaria a Symphony of the Night sem contexto nenhum sobre quem era aquele Belmont barbudo trancado numa masmorra no início do jogo.
Anos mais tarde, a própria Konami reconheceu o valor da experiência original e lançou Castlevania: The Dracula X Chronicles para PSP em 2007, trazendo um remake em 3D de Rondo of Blood junto com a versão clássica emulada como conteúdo desbloqueável, permitindo enfim que o público internacional jogasse o material original mais de uma década depois. Hoje, com a popularização de emuladores e reedições digitais avulsas, Dracula X e Rondo of Blood podem finalmente ser comparados lado a lado por qualquer fã curioso, algo impensável para quem só tinha acesso ao cartucho de SNES em 1995.
Trinta e um anos depois, Castlevania: Dracula X continua sendo um caso de estudo perfeito sobre como um jogo “inferior” ao original pode, ainda assim, deixar uma marca permanente na cultura dos videogames. Ele não foi a melhor versão da história de Richter e Annet, mas foi a versão que uma geração inteira jogou, decorou e amaldiçoou a cada game over. E isso, no fim das contas, também é uma forma de imortalidade. Se você ainda não jogou, talvez esse aniversário de 31 anos seja o empurrão que faltava para finalmente enfrentar o castelo de Drácula na pele de Richter Belmont.
