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A Censura Inusitada de Duke Nukem 3D no Nintendo 64: Um Port Cheio de Contradições

A Nintendo, hoje, abraça uma vasta gama de conteúdos em sua plataforma Switch, permitindo desde a brutalidade de Grand Theft Auto: The Trilogy até a ação gráfica de Sniper Elite 4. Essa postura contrasta fortemente com a de décadas passadas, especialmente nos anos 90. Naquela época, a empresa se esforçava para manter uma imagem “familiar”, impondo aos desenvolvedores a censura rigorosa de seus jogos. Um dos casos mais notórios dessa política foi a versão para Nintendo 64 do clássico FPS, Duke Nukem 3D, que se distanciou significativamente do seu original para PC.

Lançado em novembro de 1997, Duke Nukem 64 foi desenvolvido pela Eurocom, com o apoio da criadora original 3D Realms. A chegada deste título ao console de 64 bits da Nintendo foi uma surpresa para muitos, dado o histórico “adulto” do jogo. No entanto, ao jogá-lo, ficou evidente como os desenvolvedores conseguiram contornar as restrições, pois a censura Duke Nukem 3D N64 era extensa. A versão para PC era repleta de palavrões, gore, nudez e outros elementos considerados provocadores na época, componentes que eram tão importantes para a experiência quanto o excelente combate FPS, os vastos e intrincados níveis e os ambientes surpreendentemente detalhados e interativos.

As Transformações Drásticas no N64

A ausência desses elementos picantes na versão de Nintendo 64 é notória desde a primeira missão. No PC, a fase era conhecida como “Red Light District” (Distrito da Luz Vermelha), mas no N64 foi rebatizada como “Gun Crazy” (Louco por Armas). Onde antes existia uma loja de pornografia vendendo revistas adultas, agora há uma loja de armas. O clube de strip, que era o ponto central do nível e um deleite para inúmeros adolescentes “pervertidos” dos anos 90, transformou-se em um restaurante de fast food.

The Curious Case Of Duke Nukem 3D's Heavily Censored N64 Port
Imagem: Divulgação / Reprodução

Até mesmo as garrafas de bebidas alcoólicas espalhadas pelo cenário foram substituídas por latas de refrigerante. Praticamente nada escapou da vigilância da Nintendo, resultando em uma experiência visivelmente “limpa” para os padrões do jogo original.

Mais Alterações e Mecânicas Inesperadas

A onda de censura perpassa todo o jogo. Em “Death Row” (Corredor da Morte), uma missão ambientada em uma prisão de segurança máxima, a capela foi completamente removida porque a Nintendo não permitia referências religiosas. No “Duke Burger”, um nível secreto, as carcaças de cachorro penduradas no congelador (uma piada que sugeria que a carne do restaurante era de qualidade duvidosa) foram trocadas por carcaças de porco. Em “Raw Meat” (Carne Crua), as gueixas não expõem mais os seios quando Duke interage com elas, o que era uma marca registrada do humor provocativo do original.

The Curious Case Of Duke Nukem 3D's Heavily Censored N64 Port
Imagem: Divulgação / Reprodução

Além das remoções e substituições, a versão de N64 ainda introduziu uma nova mecânica de jogabilidade. Na versão para PC, Duke encontrava mulheres presas em casulos alienígenas nojentos que imploravam para serem mortas. Naturalmente, a Nintendo não aprovou esse conceito. Em vez de simplesmente remover essas personagens, elas foram transformadas em objetivos de missão. Interagir com uma delas fazia com que desaparecessem magicamente do nível, adicionando um ponto a um contador de “mulheres salvas” no final da fase. Embora não fosse a solução mais elegante, essa foi uma das poucas mudanças que não soou totalmente ruim, sendo certamente mais agradável do que explodir essas mulheres com uma bomba.

O Legado de um Port Ambíguo

Duke Nukem 3D é, por essência, abertamente e alegremente grosseiro. Independentemente de acharmos seu humor vulgar ou não, a linguagem chula, o conteúdo sexual e as frases de efeito são elementos intrínsecos à sua identidade. Por essa razão, a versão de Nintendo 64 é, em muitos aspectos, decepcionante. Ela foi sanitizada a ponto do absurdo, resultando em um jogo que parece uma imitação vazia do seu homólogo para PC. Muitos jogadores do N64 da época foram obrigados a se contentar com essa versão diluída, enquanto seus amigos com PlayStation desfrutavam da experiência completa de Duke.

Apesar da pesada censura Duke Nukem 3D N64, o port não era totalmente desprovido de méritos. Para contrariar as provocações sobre a “versão infantil” do jogo, havia pontos em que o N64 superava tanto a versão de PlayStation quanto, em algumas raras ocasiões, o próprio PC. Muitos níveis foram expandidos com novas salas, quebra-cabeças e áreas secretas. O chefe final, o imponente Imperador Ciclope, foi modelado em 3D completo, em vez de ser um sprite plano. As explosões tridimensionais eram visivelmente superiores, e algumas partes dos níveis exibiam detalhes adicionais de geometria e textura. Estranhamente, em certos aspectos técnicos e de design de fases, o port de N64 pode ser considerado a melhor versão de Duke Nukem 3D.

Ainda assim, a Nintendo prejudicou os jogadores com sua política de censura draconiana. É um alívio ver que a empresa evoluiu nos últimos anos, tornando suas plataformas mais ricas pela inclusão de uma diversidade maior de jogos. Duke Nukem 64 permanece uma curiosidade: um port modificado de um FPS adorado, despojado de tudo o que era minimamente provocador, mas também massivamente melhorado em algumas áreas inesperadas. O jogo já apareceu em muitas plataformas e formas diferentes – incluindo a recente edição de aniversário “World Tour” da Gearbox – mas esta é, sem dúvida, a mais estranha de todas. Afinal, Duke nem sequer diz “eat shit and die” (coma merda e morra) nesta versão. Convenhamos, Nintendo, isso foi longe demais!

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